
É declarado e bem sabido meu horror aos saudosistas. Insuportáveis, não tem vergonha de escancarar seu leque de equívocos, porém, legitimados como verdade suprema. Essa gente, entre um bocejo e outro, vive a nos alertar: “No meu tempo que era bom...” ou “No meu tempo não tinha isso...” Mas se meu olhar recai sobre o futebol brasileiro, há um aspecto no espetáculo que me tira o sono há tempos, quase me aproxima dos saudosistas: o coma profundo do cérebro nas quatro linhas.
Pois bem, tiro a poeira (ou a mantenho para dar charme à constatação) e chego à conclusão de que há pouco mais de uma década tínhamos quantidade significativa de diferenciados jogadores no meio de campo, tradicionais (saudosistas em êxtase) meias que enxergavam o jogo de maneira ampla e inteligente, os que tinham no passe a legitimação de metade do gol feito.
Percebam: são contemporâneos Rivaldo, Djalminha, Marcelinho Carioca, Edilson, Juninho Pernambucano, Giovanni, Ramon. Citei os que, de imediato, vieram à memória. E é o suficiente para me impor criar um pequena lista de cérebros, da intermediária para a frente, no futebol do Brasil nos últimos cinco anos: não há vagas. Até há. Uma vaga excepcional. Apenas: Paulo Henrique Ganso.
Chamo o camisa 10 da Vila de exceção muito mais para preencher a vaga dessa maldita lista, já que nela o rapaz não se encaixa. É que Ganso é fenômeno, coisa rara de acontecer, sujeito que, para além da inteligência, usufrui de uma invejável e luminosa intuição com a bola nos pés, está acima da média, muito acima de uma lista de jogadores apenas diferenciados. Colocá-lo ou enquadrá-lo nesta lista é desrespeitoso, nivela por baixo o seu futebol.
Ocorre uma explícita substituição do cérebro, da inteligência pela força física, pelo arrefecimento da massa corpórea. Óbvio que sou a favor de toda a tecnologia que envolve um melhor condicionamento físico do jogador, porém, o estímulo exclusivo à matéria subjuga a existência do espírito, seu aprimoramento e, inegável, superioridade. E como um ônus, disfarçado de bônus, cá por nossas bandas a vergonhosa substituição ganha alcunha de aspecto evolutivo do futebol brasileiro.
O que torna fatal a triste constatação de nosso coma profundo é que, ao invés de vermos uma quantidade de jogadores nacionais como destaque cerebral no jogo de bola, vimos a migração de estrangeiros: Petkovic rodando por vários clubes, Conca no Fluminense, D’Alessandro no internacional, Montillo no Cruzeiro, Bottinelli no Flamengo. Dos citados, afirmo a excepcionalidade de todos, a inteligência no toque de bola, ou seja, tudo o que anda escasso entre os nossos. E apenas me concentrei nos homens de meio de campo, sem falar de estrangeiros de outras posições: Tevez, Seba e Mascherano no Corínthians, Lugano no São Paulo, Viáfara no Vitória, Guiñazu no Internacional etc.
Certo é que os saudosistas da bola – estes que nos dão a impressão de que no seu tempo não havia presente, era um constante, interminável tempo passado –, que quase sempre avaliam e determinam qualidades, principalmente morais, tomando ordem cronológica como referência, diante do nosso moderníssimo tempo andam repletos de orgulho e vivenciam, em confronto direto à amnésia, a fantasia dos momentos mágicos no futebol. Cheio de zangas, combato as primeiras rugas que se formam no espírito e me desvio do saudosismo com acintosa esperança de ver nas quatro linhas um arsenal de excepcionais homens de meio de campo apenas um degrau abaixo do Paulo Henrique Ganso – não mais esse abismo separando o gênio dos meros mortais, porém imprescindíveis cérebros, que tornam atemporal a emblemática camisa 10.
1 comentários:
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