
Porque o Papa não é pop sobra ao apóstolo Pedro, a Aldous Huxley e George Orwell mera imortalidade numa espécie de Academia Intergaláctica de Letras. Sim, seria o fim do mundo se permanecesse à frente da maior instituição religiosa do Ocidente um sujeito repleto de carisma e discurso apático. O olhar do Ratzinger é o de quem está sempre tentado a cuspir, enojado, no chão. No olhar do Ratzinger pulsa viva a rispidez que desaprova o aborto, que suporta a camisinha apenas na calamidade doentia de países africanos e que considera, de forma coerente, a salvação das nossas florestas tão importante quanto a salvação dos homossexuais. Os olhos do Ratzinger bem refletem a impetuosa fé, uma absoluta profundidade que falta no morno olhar do Wagner Benazzi.
O técnico do Vitória apresenta nos gestos, seja na coletiva de imprensa, seja à beira do campo, muito pior do que uma heresia, uma total inexistência de vida, um jeito confuso de se expressar, pouca transparência e toda vez que está sendo entrevistado se mexe de um lado a outro, ininterruptamente. Mas basta olhá-lo nos olhos para se obter a síntese desse prato cheio para as oportunas análises de José Ângelo Gaiarsa [o meu verdadeiro pai]. E, óbvio, toda essa notória inexpressividade já se faz presente no comportamento do rubro-negro baiano. A indecisão e pouca fé no próprio potencial proporcionam desde péssimas saídas de gol do excelente Fernando até o ínfimo poder ofensivo dos homens de frente.
Ato ilusório teria sido o triunfo, como goleada, sobre a frágil equipe do Americanas. Não causou euforia porque se viu um Vitória ineficiente, descrente de si, que só elasteceu o placar graças à expulsão de um jogador adversário e, na sequência, testemunhou o pedido de demissão do Toninho Cecílio colocando o time paulista todo à frente, escancarado para os contra-ataques do time baiano. No sábado, ainda cabisbaixo com a derrota sofrida contra o Criciúma, o Vitória deixou escapar três pontos fundamentais diante do frágil São Caetano. Viu-se ligeiro sopro de vida no olhar do Benazzi, no segundo tempo, trocando Esdras por Geraldo. Fez efeito: o Vitória virou o jogo a partir de então. A prova de que fora, de fato, apenas sopro é que Benazzi enxerga em Neto Baiano um tipo de amuleto para o time, já que insiste em mantê-lo como titular. Em campo, o nervoso atacante apresenta o que tem sido hoje sua melhor performance: torcer pelo Vitória.
Pois bem, cá está achada a solução para tornar vivo o olhar do Wagner Benazzi. Porque a partir do momento em que tomou a atitude – sem muito pensar, no impulso e na intuição – de jogar todo um tempo com o time partindo para dentro do adversário com dois meias, dois atacantes e os laterais subindo Benazzi permitiu-se, por aqueles significativos quarenta e cinco minutos, o olhar que talvez poucas vezes preencheu seu semblante. Basta coragem na ação do Benazzi. É de extrema importância e necessidade tirar Lúcio Flávio da solidão de distribuir bolas à frente, tornando Geraldo seu definitivo companheiro de meio de campo. Embora partir para uma tática de absoluto ataque torne o time vulnerável a sofrer gols – principalmente porque entre os zagueiros somente Alisson, contundido, se salva –, a tendência, neste caso, é que o Vitória, sim, os sofra, porém, creio que há maiores chances de se conquistar três pontos nos passes que resultarão em efetivas finalizações de Marquinhos e Fábio Santos.
Bem próximo da metade do campeonato deve-se levar em consideração uma postura mais intensa, vital, que se reflita em muito menos conversas e explicações, muito mais em ações concretas. É de se esperar que aos olhos de Benazzi já tenha ficado claro que não há nenhuma condição de ter, na zaga titular, o Léo Fortunato. E nem mesmo a bem-vinda emoção de torcedor do Neto Baiano deve lhe garantir vaga no ataque.
Não basta intenção para se chegar entre os quatro classificados à Série A. Atitude corajosa e um modo ofensivo de jogar é que darão suporte para que se alcance tal trunfo. É preciso que brilhe no técnico um olhar verdadeiramente crente de si e de seu grupo, que esteja mais para a ambição dos olhos de Airton Senna do que paraos olhos de benevolência de Rubens Barrichello. Se o Vitória pretende um retorno íntegro à elite de nosso futebol, que seja, então,a vida eterna do olhar penetrante que aproxima Irmã Dulce a Adolf Hitler o factual espelho de todas as manhãs do Wagner Benazzi.
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