segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Bahia no coração de Darlan

Não é tudo que anda enrustido que deve ser digno de desprezo ou pouca consideração. Muitas vezes vive-se às escondidas inevitáveis paixões que, por uma série de fatores ou circunstâncias, não podem ser explicitadas, mas que nem por isso deixam de ser intensas e verdadeiras. Sim, Darlan é o genuíno torcedor do Vitória, com todas as características em estado puro: não vai ao Barradão [prefere o rádio e a resenha], está sempre desconfiado, chega a torcer contra o time e muito raramente vibra na hora do gol. Mas, como já é bem sabido, o coração pulsa, suspira e sopra coisas bonitas. Por detrás da frieza – porque é dado a poucas demonstrações de afeto – há o Bahia no coração de Darlan.

Jamais será possível encontrar no semblante de Darlan o mínimo traço de raiva quando o assunto é o Bahia. Quem não o conhece naturalmente se assusta quando o vê falando de modo um tanto tranquilo e sem ressentimentos sobre o Tricolor de Aço. Alguns torcedores do Vitória, insensatos, chegam a questioná-lo sobre sua opção de time porque teimam não aceitar deste meu atípico amigo um tão absoluto conhecimento de pontuação, número de vitórias, empates e derrotas, gols a favor, gols contra, estatísticas dos jogos e de elenco, sequência de tabela com data, horário e lugar que nunca os finados Lourinho e o Anão do Bahia se dispuseram a acompanhar.

Na tarde de ontem, enquanto eu, Itamir Sampaio e Israel Pacheco acompanhávamos, no bar, via TV a cabo, o duelo entre Bahia e Flamengo, eis que surge Darlan: camisa vermelha, bermuda azul. Vestido a caráter, porém inconsciente, durante todo o jogo seus olhos não piscavam, atento à equipe colocada em campo percebera um Bahia mais solto, melhor arrumado, e não hesitou em declarar do começo ao fim da partida: “O Bahia tem que deixar o técnico interino... porque ele consegue ver aspectos que qualquer um consagrado que chegue pra treinar o Bahia não vai conseguir enxergar.” A cada gol do time tricolor, Darlan, contido nos gestos corporais, vibrava com o olhar de criança vendo bola de sabão, não disfarçava no rosto o sorriso discreto dos que alimentam um amor escondido.

Talvez tão recente quanto torcer para o Vitória essa paixão enrustida pelo Bahia é, decerto, mais intensa e melhor vivida emocionalmente por Darlan. No ano de 2010 meu atípico amigo acompanhou todos os passos do Bahia à triunfal volta ao grupo de elite do futebol brasileiro. Fora uma ininterrupta tensão, já que o Tricolor passara por altos e baixos na campanha, e Darlan sempre atento e constantemente a fazer contas de pontuação e possiblidades que levariam o Bahia ao bem quisto G4, obviamente, sofrera junto aos vibrantes torcedores. É tanta emoção descabida dentro de si que Darlan, semanas atrás, tendo visto o trailer do documentário “Bahêa Minha Vida”, em especial no emocionado depoimento do ídolo Zé Carlos, deixou escapar, despudorada, uma lágrima e o afoito desabafo ao pé do meu ouvido: “Quando o filme estiver em cartaz nós vamos!”

O Bahia amanheceu respirando aliviado porque se mantém distante da Zona de Rebaixamento. Daqui para frente é preciso ter absoluto o pensamento de vencer para continuar vivo na elite de nosso futebol, com ou sem acesso à Sul-Americana. Deve-se aproveitar o gosto da autoestima de derrubar, fora de casa, o Flamengo – que há tempos passeia entre os quatro melhores da competição – para enfrentar, destemido, a mediana equipe do Grêmio no meio da próxima semana. Embora apaixonado, Darlan muitas vezes prefere a cautela e a todo instante ressalta, preocupado, o quanto os clubes grandes, através da arbitragem, já prejudicaram e ainda tendem a prejudicar o Bahia neste segundo turno.

Hoje, dia em que Darlan completa mais uma primavera, me veio à mente a verídica estória de um sujeito bêbado que, vestido com a camisa tricolor, fora questionado por um senhor de idade: “Mas você não era Vitória, rapaz?” – Cheio de desprezo, o moço embriagado responde: “Aonde! Eu lá sou homem de torcer pra essa miséria de time... já tem um ano que sou Bahia, meu irmão!” Pois bem, me traz alívio saber que Darlan não apresenta a mínima disposição para nos proporcionar papel tão vexatório. Porque é um poço de sensatez não combinam com meu atípico amigo atitudes que rementam a pouca confiança para que seja vista e contemplada, nas entrelinhas, sua incontestável paixão pelo Esporte Clube Bahia.

7 comentários:

FÁBIO ( MATOSO ) disse...

Ótimo texto Cazinho!!!
Ninguém nos vence em vibração!!!
Darlan tinha na cabeça o Vicetória,
Mas o coração sempre foi TRICOLOR!!!

ocazul disse...

pura ficção!!

Anônimo disse...

Muito bom, colega!
O texto num alinhave bonito e o argumento sensacional: coisas da Bahia!
Frequentarei esse espaço.

Abraço,

Fábio (CASCADURA) Magalhães.

Fabi disse...

Adorei!
Sempre soube que Darlan era Bahia... Ele só é supersticioso e se subestima enquanto "amuleto da sorte tricolor"! Huahuahuahua... xD

Anônimo disse...

Nossa quanto senso de humor!

Sanjespatty

Itamir disse...

Brilhante!

Anônimo disse...

Congratulações cacetinho! Ótimo texto. Darlan é um tricolor safado. BBMP!
Rodrigo Taveira.